terça-feira, 16 de abril de 2013

A sopa tá fervendo



"Não pode haver nenhum crescimento sem conflito psíquico e sem agitação espiritual. A organização de um modelo filosófico de vida requer uma perturbação considerável nos domínios filosóficos da mente.

A lealdade não é exercida em nome daquilo que é grande, bom, verdadeiro e nobre, sem uma batalha.

E o intelecto humano reluta contra ser desmamado da alimentação das energias não espirituais da existência temporal. A mente animal indolente rebela-se contra exercer o esforço exigido pela luta na solução dos problemas cósmicos."
(O Livro de Urântia, 100:4.2)


A sopa tá fervendo

O homem moderno, pós revolução dos anos 60, desestruturou toda a base do pensamento humano vigente. Com conceitos como paz, igualdade, liberdade os alicerces de sustentação da sociedade humana balançaram. Mas perduram.

Mal equilibrada, capenga, apoiando-se ora em uma perna ora em outra a sociedade humana chegou ao século XXI. E necessita urgentemente de novas bases.

O materialismo está desmoronando. Quase não é mais possível tampar o sol com a peneira. Os buracos são grandes demais para serem ignorados.

A sociedade é um caldeirão lotado de ingredientes diversos, mergulhados em água. Prontos para serem levados ao fogo para o preparo da sopa, ou do feitiço. Essa sopa vem sendo preparada a éons e de tempos em tempos, acrescenta-se um novo ingrediente. Acontece que a sopa do Novo Milênio tem um ingrediente bombástico.

Não existe bem, não existe mal.

Fazem mais ou menos cinquenta anos que esse ingrediente tem sido acrescentado à essa sopa, em doses homeopáticas. Hoje ele já é tão presente que quase não dá mais para ser ignorado.

E agora José? E agora João?


E Agora José?
A festa acabou,
a luz apagou,
o povo sumiu,
a noite esfriou,

e agora, José?
e agora, você?
você que é sem nome,
que zomba dos outros,
você que faz versos,
que ama, protesta?

e agora, José?

Está sem mulher,
está sem carinho,
está sem discurso,
já não pode beber,
já não pode fumar,
cuspir já não pode,
a noite esfriou,
o dia não veio,
o bonde não veio,
o riso não veio,
não veio a utopia
e tudo acabou
e tudo fugiu
e tudo mofou,
e agora, José?

Sua doce palavra,
seu instante de febre,
sua gula e jejum,
sua biblioteca,
sua lavra de ouro,
seu terno de vidro,
sua incoerência,
seu ódio – e agora?

Com a chave na mão
quer abrir a porta,
não existe porta;
quer morrer no mar,
mas o mar secou;
quer ir para Minas,
Minas não há mais.
José, e agora?

Se você gritasse,
se você gemesse
se você tocasse
a valsa vienense,
se você dormisse,
se você cansasse,
se você morresse...
Mas você não morre,
você é duro, José!

Sozinho no escuro
qual bicho-do-mato,
sem teogonia,
sem parede nua
para se encostar,
sem cavalo preto
que fuja a galope
você marcha, José!
José, para onde?


Paulo Diniz

Nenhum comentário:

Postar um comentário